O novo paradigma da Resposta.
Vivemos a falar de instabilidade como se fosse uma anomalia. Como se o contexto atual – guerra, inflação, flutuações constantes – fosse um desvio temporário a um estado “normal” de previsibilidade. Mas talvez seja precisamente aqui que estamos a falhar na leitura do momento. A estabilidade deixou de ser o ponto de partida.
Na construção, isso sente-se todos os dias. Orçamentos que deixam de fazer sentido em poucos meses. Decisões que precisam de ser revistas a meio do processo. Clientes que ajustam expectativas em função de fatores que ninguém controla. Equipas a trabalhar sob uma pressão contínua, muitas vezes silenciosa, que não aparece nos relatórios, mas aparece nos erros, nos conflitos e no desgaste.
E no meio disto tudo, a pergunta impõe-se.
Será que a forma de responder a esta instabilidade é com mais controlo?
Mais validações. Mais processos. Mais validações. Mais pressão sobre equipas que já estão a operar no limite.
Ou será que estamos a tentar resolver o problema errado?
Porque talvez o ponto não seja conseguir prever melhor. Talvez o ponto seja aceitar que já não é possível prever com o nível de segurança a que nos habituámos.
E, se assim for, o que é que muda na forma como lideramos?
O que é que muda quando percebemos que o problema não está na previsão – está na velocidade a que a realidade ultrapassa qualquer previsão?
Se aceitarmos isto, então não estamos apenas perante um contexto mais exigente.
Estamos perante uma mudança estrutural naquilo que significa liderar, gerir e trabalhar.
E talvez a pergunta já não seja “como é que controlamos melhor?”, mas sim “como é que nos preparamos para responder melhor?”
Porque responder bem em contexto de incerteza não é improvisar. É ter base. Uma base que não depende de um plano fechado, mas de critérios claros. De uma espécie de guião interno que orienta decisões quando já não há tempo – nem condições – para validar tudo.
E é curioso como muitas organizações ainda tratam isto como secundário. Como se valores fossem uma camada mais estética do que operacional. Mas num contexto como o atual, os valores deixam de ser discurso e passam a ser ferramenta. São eles que reduzem ambiguidade quando o plano falha. São eles que permitem que uma decisão seja tomada no terreno com coerência, mesmo sem validação superior. E são eles, sobretudo, que expõem a consistência – ou incoerência – da própria liderança
Porque não basta definir. É preciso sustentar. Especialmente quando é mais difícil.
Talvez seja aqui que começa a verdadeira mudança. Não tanto nos processos, mas na forma como se constrói critério dentro das equipas. Na forma como se desenvolve a capacidade de decidir com informação incompleta sem entrar em bloqueio. Na forma como se ajusta sem perder direção. Na forma como se mantém clareza quando tudo à volta está em movimento.
E há uma dimensão que continua a ser subestimada, mas que está cada vez mais presente no dia a dia das equipas: o impacto emocional deste tipo de contexto. Porque trabalhar em incerteza contínua desgasta. E o desgaste não se resolve com mais pressão.
Pelo contrário, amplifica o erro, reduz a qualidade da decisão e fragiliza a execução.
Ignorar isto não é uma falha “humana”. É uma falha operacional.
No fundo, o que está a acontecer é uma mudança de paradigma silenciosa. Durante muito tempo, valorizámos a capacidade de antecipar, de planear, de reduzir o imprevisto. Hoje, isso já não chega. O valor está cada vez mais na capacidade de resposta – não na reação impulsiva, mas numa resposta com critério, com rapidez e com consistência.
E isso obriga a uma redefinição que nem sempre é confortável. Porque implica largar a ideia de controlo como sinónimo de segurança. Implica confiar mais – nas pessoas, nos sistemas, nos princípios. Implica aceitar que nem tudo vai correr como previsto, e que isso não é necessariamente uma falha.
Talvez o maior desafio neste momento não seja lidar com a incerteza.
Seja aceitar que ela deixou de ser exceção – e passar a trabalhar a partir daí.
— Tiago Granja
CEO, DWF