Quando somos mais novos, imaginamos o futuro sem grande preocupação com fronteiras. Queremos conhecer. Experimentar. Ir. Descobrir.
Depois, algures pelo caminho, começamos a desenhar círculos cada vez mais pequenos.
Onde fica o trabalho?
Quanto tempo demora até casa?
É perto da família?
Consigo manter exatamente a mesma rotina?
Perguntas legítimas. Mas talvez valha a pena acrescentar outras.
Quando é que começámos a avaliar uma oportunidade primeiro pela distância e só depois pelo potencial?
Quando é que crescimento passou a significar “mais”, desde que esse “mais” não nos obrigue a mexer demasiado naquilo que já conhecemos?
E quando é que começámos a confundir estabilidade com ausência de movimento?
Não defendo que toda a gente tenha de partir. Defendo uma coisa diferente: que talvez devêssemos recuperar a liberdade de considerar essa hipótese. Porque construir uma carreira também pode ser uma forma de empreendedorismo. Não é preciso fundar uma empresa para pensar como alguém que constrói.
Podemos olhar para o nosso percurso como um projeto: perceber onde estamos, imaginar onde queremos chegar, aceitar risco, investir em experiência e tomar decisões que façam sentido não apenas para o próximo mês, mas para os próximos dez anos.
E isso obriga-nos, por vezes, a fazer uma pergunta desconfortável:
Estou a escolher aquilo que quero ou apenas aquilo que interfere menos com a vida que já tenho?
Há gerações que saíram das suas cidades, atravessaram países e oceanos à procura de oportunidades. Hoje temos mais informação, mais mobilidade e mais possibilidades do que alguma vez tivemos. E, paradoxalmente, talvez estejamos a ficar menos disponíveis para sair do nosso perímetro.
Como aconteceu esta inversão?
Onde é que o conforto deixou de ser uma conquista e começou, silenciosamente, a transformar-se num limite?
Não tenho uma resposta fechada.
Mas acredito que uma carreira ganha outra dimensão quando deixamos de perguntar apenas:
“Onde consigo trabalhar sem mudar demasiado a minha vida?”
e começamos também a perguntar:
“Que vida posso construir se me permitir ir mais longe?”
Talvez empreender a própria carreira comece exatamente aí.
E as famílias?
Talvez seja aqui que a pergunta se torne verdadeiramente difícil. Porque uma carreira não acontece no vazio. Há companheiros, filhos, escolas, pais, rotinas e vidas construídas a dois ou a vários. E há decisões profissionais que deixam de ser exclusivamente nossas.
Mas também aqui talvez valha a pena questionar os modelos que herdámos. Uma família precisa necessariamente de permanecer no mesmo lugar para permanecer unida? Uma oportunidade longe implica sempre mudar toda a família? Ou pode significar encontrar, durante um período, uma nova forma de organizar a vida?
Não há uma resposta certa. Há famílias para quem partir não é possível. Outras para quem não faz sentido. E outras ainda que talvez nunca tenham colocado essa possibilidade em cima da mesa porque o modelo conhecido parece ser o único disponível.
Talvez a questão não seja escolher entre família e crescimento. Talvez seja perceber se estamos a permitir que ambos façam parte da mesma conversa.
— Tiago Granja
CEO, DWF